O empate insignificante de um clássico insensível

Publicado em Atlético, Campeonato Mineiro, Cruzeiro, Futebol
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(Foto: Bruno Cantini/Atlético/Divulgação)

(Por Fernando Gregori – @ferdsmg)

Me perdoem. Não vi o jogo de ontem. Nem quis ver. Ouvi alguns lances pelo rádio e só. Não tinha como preocupar com bola, quando centenas de pessoas, muitos amigos e parentes de gente conhecida, estavam vivendo a angústia de perderem seus entes queridos em mais uma tragédia causada pela ganância e falta de respeito com a vida e a natureza.

Falar de futebol no Brasil está cada dia mais sem graça. De uns tempos pra cá, o esporte preferido do brasileiro está deixando de ser a coisa mais importantes das coisas menos importantes e virando um mero adereço descolado da realidade. Parece que o futebol brasileiro vive numa dimensão paralela.

Já não basta a caótica situação política do país e nossa crise moral, com episódios de intolerância, assassinatos de políticos, perdas de direitos, democracia em risco e radicais no poder, ainda precisamos sobreviver aos crimes ambientais, que se tornaram regulares.

No meio disso tudo, um clássico estadual, menos de 48h de uma tragédia, ocorrida a meros 60km do local do jogo, com equipes de socorro ainda em busca de sobreviventes. E como se o Mineirão fosse em outra galáxia, dirigentes dos 2 maiores clubes de MG, discutiam quem mandava mais na FMF. Enquanto isso, mais corpos eram retirados da lama. Mas o que importava era saber se torcidas poderiam ou não entrar com bandeiras e instrumentos musicais na arquibancada.

Assim, o jogo que nem deveria ter existido, começou no horário mais nojento que uma TV poderia inventar. 11h da manhã, de um domingo de verão, sem TV aberta. Menos mal. Porque o jogo que não deveria acontecer, transcorreu dentro de sua mais completa normalidade. Um time faz pressão na federação, o juiz ajuda para não dizer que o outro time manda na federação e segue a chatice de um Galo x Cru, comandados por garotinhos mimados da 5ª série.

E durante 90 ultrajantes minutos, jogadores de Galo e cru, alguns mais sensíveis que outros, participaram de um evento que, no mínimo, insultou a memória daqueles que foram assassinados pela lama, apenas 2 dias antes. Federação Mineira, Atlético e Cruzeiro deram um grande exemplo de como as vidas humanas estão banalizadas e se transformaram em meros números estatísticos.

O jogo que nada valia mostrou a nós mesmos, como somos um povo acostumado com as coisas erradas e até as achamos normal. E os clubes de futebol se provaram cada vez mais distantes de suas responsabilidades sociais. Continuam vivendo em um mundinho próprio, completamente afastados da realidade.

E aqui vai um mea culpa. Com certeza, daqui uns dias, também estarei preocupado com o Galo na Libertadores e o crime de Brumadinho vai virar uma lembrança de Facebook. Porque fomos condicionados a isso. A deixar pra trás, até que a merda aconteça de novo e nos traga ,por alguns segundos, de volta à nossa dura vida real.

No final do jogo mais inútil do futebol mineiro, um empate sem graça, sem nada pra comemorar, a não ser a insensibilidade e a estupidez humana. Levamos muito ao pé da letra o mantra “o show deve continuar”. Não, não deve. Ele precisa parar. A gente precisa refletir. As pessoas que comandam este país precisam pensar. O futebol só vai voltar a ter graça no Brasil, quando a gente tiver noção do que nos transformamos e porque é mais fácil nos escondermos atrás de um joguinho mequetrefe, do que nos mobilizarmos para exigir um país melhor e mais justo, onde o lucro e o poder não possa valer mais que a vida.

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8 comentários para “O empate insignificante de um clássico insensível

  1. “democracia em risco e radicais no poder”? parei de ler nessa parte. vi que não perderia nada… vc é um imbecil de querer falar de futebol e ficar expondo sua viuvez pelos ladrões petistas…. senta e chora, porque agora só em 2042 (8 anos do mito, 8 do guedes e 8 do moro).

    1. Sua resposta e a do sr. Ewerton, logo abaixo, provam que o Gregori tem plena razão. Somos um povo sem noção. A abordagem dele foi perfeita, insensibilidade ante um crime somado a uma crise moral que nos assola, sem se esquecer do tema central que é o futebol. Há quem diga que essa falta de entendimento é uma simples questão de cognição.

  2. Quando li o título resolvi entrar e ler a matéria porque sou torcedor e estou convicto de que não deveria ter tido esse jogo por não ter clima para tal. Mas quando comecei a ler percebi que o blogueiro procurou direcionar para o plano político, especialmente para criticar o novo governo que assumiu a poucos dias. Se eu entendi bem foi dito que o país vive uma crise moral (até aí eu concordo), com a “democracia em risco e radicais no poder”. Ora, se o país vive uma crise moral não é por causa do novo governo, essa crise vem de anos, aliás os ditos “democratas” ficaram no poder por 16 anos e agora a culpa é dos “radicais” que lá estão há 28 dias. Não sei pra quem esse blogueiro direciona seus textos, mas seria melhor que publicasse seus textos no grupo Globo que tem feito tudo pra detonar o início do novo governo. É uma pena pois o seu texto de hoje tinha tudo pra ser íntegro, mas vc preferiu levar para o lado político partidário. Lembrando que o presidente hoje foi submetido a uma cirurgia em decorrência de um crime cometido por um adepto da “democracia”…..

  3. Pessoa que se intitula democrata, mas que não respeita a vontade da maioria. Lamentável que, para muitos, a democracia somente é válida quando seu candidato é eleito. Obs. Não votei no presidente atual, mas entendo ter ele sido democraticamente eleito, tendo portanto legitimidade incontestável.

  4. Na minha opinião, o Brasil deixou de ser democrático no segundo mandato de Lula. Não votei no atual governo unicamente pelas suas posições na questão ambiental e, nem no Zema pelo mesmo motivo. mas também não pude votar no PT/PSDB. Quanto ao jogo, lamentável o horário, as catimbas, a rivalidade idiota mas o erro é de Cruzeiro/Atlético/FMF/Globo e de nós todos que amamos o futébol.

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