Clubes brasileiros sofrem com crise de identidade

Publicado em Futebol
Oswaldo de Oliveira e Thiago Larghi: ideias de jogo distintas Foto: Bruno Cantini/Atlético

(Por Vinícius Andrade)

A identidade é um conjunto de fatores particulares que define uma pessoa, como nome, filiação, impressão digital, princípios, gostos, etc. E no futebol, existe identidade? Você saberia falar qual é a do seu clube de coração? Nome, cores, escudo, mascote, história e hino são boas diretrizes. Porém, você consegue dizer qual a identidade no modelo de jogo de seu clube? Ela é necessária? Pode variar?

Pensemos na Seleção Brasileira, pentacampeã do mundo. Ainda que as decepções recentes estejam latentes na memória, ao analisarmos historicamente o futebol brasileiro, podemos reunir características marcantes que ajudam a construir uma identidade: ofensividade, imposição técnica, valorização do talento individual e jogo propositivo. A CBF não elaborou uma cartilha com estes atributos e nem todas as gerações atuaram dessa forma, mas treinadores que fugiram dessa identidade tiveram maior resistência, como Dunga e Mano Menezes, por exemplo.

No mundo ideal, os clubes deveriam ter um departamento de futebol qualificado que prezasse pela identidade no modelo de jogo. Meu time deve praticar um futebol de velocidade ou cadenciado? Ser propositivo ou reativo? Vertical e direto ou mais controlador? São nortes que balizariam as contratações de técnicos e jogadores. Mas, em função da desorganização dos clubes e da pressão pelo resultado imediato o que vemos são trocas desordenadas de treinadores e elencos.

Analisemos um exemplo bem prático. De 2016 a 2019, o Atlético-MG teve sete treinadores (Aguirre, Marcelo Oliveira, Roger Machado, Rogério Micale, Oswaldo de Oliveira, Thiago Larghi e Levir Culpi). Como pode técnicos com perfis tão diferentes passarem pelo mesmo clube em um espaço tão curto de tempo? Falta de identidade e buscas desordenadas por resultados imediatos.

Outro exemplo bem gritante é o Santos. Talvez o alvinegro praiano seja o clube brasileiro com a identidade mais evidente. Santos é sinônimo de futebol ofensivo, veloz, intenso, bem enraizado na figura de Pelé. Como explicar a escolha por Jair Ventura, em 2018? A diretoria santista simplesmente analisou os números de Jair no Botafogo e viu que eram bons. Mas, e os conceitos de jogo? O que ele pensa sobre futebol? Nada disso importou e o desfecho nós sabemos.

Identidade pode ser modificada

Assim como nós mudamos alguns hábitos e deixamos de gostar de certas coisas ao longo do tempo, é possível que um clube altere sua identidade de jogo com o passar dos anos, mas de forma consciente. Um bom exemplo é o Corinthians. Desde 2008, Mano Menezes passou a introduzir uma ideia mais conservadora, com foco na organização defensiva. Claro que os bons resultados respaldaram a sequência do trabalho, mas é importante observar que o clube manteve uma linha de raciocínio com Tite e Fábio Carille. Sem dúvidas, não dá para ignorar as passagens aleatórias de Cristóvão Borges, Oswaldo de Oliveira, Osmar Loss e Jair Ventura, o que demonstra falhas durante esse processo.

Mano Menezes – Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro

O Cruzeiro também arriscou (não sei se de forma consciente ou simplesmente pelo peso do técnico). Clube notabilizado pelo futebol ofensivo e envolvente, optou por um treinador especialista em organizar sistema defensivo e controlar jogos de forma pragmática. Novamente Mano Menezes recebeu a incumbência de quebrar um enorme paradigma. Mesmo com dois títulos de Copa do Brasil, alguns torcedores ainda resistem ao ver um Cruzeiro mais cauteloso, mas, no fim das contas, o que prevalece mesmo é resultado e por isso Mano segue intocável na Raposa.

Respondendo as perguntas iniciais, é cada vez mais difícil diagnosticar a identidade no modelo de jogo dos clubes brasileiros. A constante troca de técnicos com perfis completamente diferentes revela o amadorismo dos cartolas na gestão do futebol. As identidades precisam ser construídas e podem ser alteradas, mas o planejamento precisa nortear as decisões para que o acaso tenha cada vez menos espaço.

7 comentários para “Clubes brasileiros sofrem com crise de identidade

  1. Argumentos sólidos pertinentes, estruturados na história (nem tão recentes!) dos clubes citados.
    De fato, os dirigentes de futebol dos clubes citados estão a anos-luz da história e do que as torcidas merecem!
    Belo texto!

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