As crianças do Galo

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Dois fotógrafos diferentes capturaram a emoção do mesmo garotinho atleticano nos ombros do pai (Fotos: Bruno Cantini/Atlético/Divulgação (esq.) e Daniel Teobaldo/Reprodução)

(Por Fernando Gregori – @ferdsmg)

Sou Atleticano forjado nos anos 80, na geração Reinaldo, Éder, Cerezo e cia. Na minha rua e na minha escola, não existiam mais que 2 torcedores do outro time. Era um verdadeiro massacre alvinegro na preferência das crianças daquela época. Muito fruto do timaço que o Galo tinha, e da mais absoluta insignificância do nosso freguês.

Mas tinha uma outra coisa que fazia os meninos e meninas daqueles anos amarem o Galo mais que tudo na vida. Quem viveu nesse tempo sabe como era sensacional ir aos jogos do Galo no Mineirão, pra ver a festa da torcida.

Os domingos tinham uma programação fixa. Meu pai, um flamenguista radicado em BH, pegava sua Belina amarela, enchia de crianças da rua e rumava para o Mineirão. Era uma festa. Íamos até com a porta traseira aberta, balançando as bandeiras e gritando GAAAAALOOOO da Floresta até á Pampulha. Chegando lá, ele comprava o ingresso dele e nós, todos menores de 12 anos entrávamos de graça. Lembro até hoje dele falando com o porteiro, enquanto cada um dos meus amigos ia rodando a roleta: “esse tá comigo, esse também, essa também, esse, esse dois menores, mais esse e esse aqui também!”.

Lá dentro a festa era ainda maior. Ficávamos encantados com o barulho, com as bandeiras, com as músicas, com o cheiro dos foguetes. Corríamos de um lado para o outro na arquibancada de concreto. Íamos até a charanga ficar pulando com as batucadas. O jogo era o que menos importava, mas quando era gol, rapaz, era um tal de abraçar todo mundo que estava do lado, pular sem parar, jogar bandeira para o alto e, de vez em quando, tomar um banho de cerveja.

Na volta pra casa, era mais festa e buzinaço na Antônio Carlos até chegar em nossa rua. Todos devidamente entregues em suas casas e ansiosos pelo próximo domingo de jogo do Galo no Mineirão. Foram anos assim. Hoje, somos homens e mulheres adultos e Atleticanos que, com certeza, não teríamos esse amor pelo Galo se na época nos cobrassem ingressos.

Acredito que por causa dessa gratuidade, que perdurou por décadas antes e alguns anos depois, toda uma geração de Atleticanos se formou. Hoje são pais que não tem a oportunidade de fazer o que meu pai fez. Levar filhos e amiguinhos dos filhos ao estádio, como um programa de domingo. O ingresso caro, a violência, a concorrência desigual de games, internet e times europeus estão comprometendo o futuro da nossa torcida.

O mantra de que futebol agora é pra rico, vai matar a torcida. A magia do futebol e das torcidas sempre esteve no fácil acesso do povo aos jogos. Um programa de família, que com o tempo, a ganância e a burrice dos clubes, tirou o torcedor da arquibancada e colocou no lugar o consumidor chato.

Por isso, o que o Galo fez ontem, liberando uma carga de ingressos gratuitos para crianças até 12 anos, deveria ser praxe e não exceção. Deveria ser obrigatório. Ontem o Mineirão voltou no tempo e reviveu as glórias dos anos 80. Estádio cheio, milhares de crianças e suas famílias em uma festa linda. Um astral diferente. Uma sensação de que o povo quer voltar ao estádio. É só deixarem.

Ontem eu vi vendedor ambulante reclamando que vendeu demais, porque criança quer comer pipoca, beber refrigerante, algodão doce, sanduiche. E o pai e mãe pagam sem reclamar. Afinal, é uma festa. E na festa a gente curte.

Ontem eu vi a torcida cantar o hino após uma vitória. Coisa que não acontecia há tempos. Porque quem estava lá, fazia isso quando era criança e sentiu saudades. Só faltou fazermos a procissão atrás da charanga.

Mais do que a vitória sobre o Mequinha, mais do que ver que o Galo só sabe jogar para o ataque, mais do que constatar que temos um sério problema de treinamento, mais do que aguentar a má fase eterna do Fábio Santos, o jogo de ontem foi o resgate da verdadeira alma Atleticana.

Como seria bom, se o marketing (?) do Galo tivesse a exata noção da força da Massa. Como seria bom se alguém lá dentro pensasse em transformar os jogos do Galo em uma grande atração para toda família. Criar um espaço Família na arquibancada, para país e mães poderem sentar tranqüilos com seus filhos, com um banheiro adaptado para crianças, com fraldário e até monitores. Com um espaço kids na esplanada, com um show no intervalo para os torcedores mirins. Idéias não faltam. Basta que o diretor de marketing ande no meio da torcida ao invés de ficar no camarote.

É assim que se forma novos torcedores. É assim que o Atleticanismo passa de geração em geração. É assim que o time se fortalece em campo. É assim que se aumentam as fontes de renda.

É como o garoto Gabriel, que não se desgrudou do Alerrandro na matéria do GloboEsporte e será mais um Atleticano fervoroso como a gente. É como o garotinho Arthur que ilustra essa coluna que, com apenas 4 anos, rezou para o Galo ganhar e virou um símbolo da fé inabalável da Massa. É como eu e milhões de outras crianças, que lá atrás, quando o futebol ainda era do povão, tiveram a chance de ir ao estádio várias vezes com seus pais, para fazer festa.

O Galo é das crianças. E enquanto houver uma criança na arquibancada, o Galo será imortal.

GRATUIDADE PARA CRIANÇAS, SEMPRE!

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10 comentários para “As crianças do Galo

  1. Muito bom Ferds! Vc sabe q sou um dos defensores fervorosos desta gratuidade. Isso tem q continuar acontecendo sempre. É o jeito mais fácil de formar torcedores e sempre será.

  2. Olá Fernando, bom dia! Cara, parece que você estava contando minha história! Você foi perfeito ao narrar a experiência de todos nós, dos atleticanos com 40 e poucos ou 40 muitos, de ir ao Mineirão! Sem tirar nem pôr uma vírgula sequer. E que pena que o prefeito pregue que o estádio agora é para rico. Se tiver que realmente ser assim, o futebol estará vendo o início do fim.

    1. Grande Tércio, obrigado pelo comentário. É a história de todo Atleticano que cresceu vendo o Galo nos 80. Foi exatamente isso que nos fez ter sangue alvinegro. Tomara que o Galo abrace essa ideia de novo

  3. Fernando, peço licença para entrar no seu blog. Gostei, quando você falou ali sobre um banheiro adaptado para crianças, com fraldário e até monitores, que a diretoria do Galo (Glorioso), pense nisso, na construção de nosso estádio, pois criança é alegria sempre.

  4. Fernando, peço licença para entrar no blog. Sensacional sua idéia de que os estádios deviam ter banheiros adaptados para crianças, com fraldário e até monitores. Que a diretória do Galo (Glorioso), pense nisso me coloque esta sua idéia no projeto de nosso estádio.

  5. Apesar de torcer para o time que perdeu adorei seu texto e suas idéias! Saudades desse atleticano de coração e alma, que segue levantando a bandeira do time e da torcida!

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