Niki Lauda é imortal

Publicado em Automobilismo, Fórmula 1
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Niki Lauda no GP de Nürburgring, em 1975, um ano antes do acidente quase fatal (FIA/Reprodução)

(Por Marcelo Fraga  – @omarcelofraga)

Em 1976, quando a Ferrari nº 1 foi consumida pelas chamas no perigoso circuito de Nürbugring – o inferno verde – na Alemanha, eu nem sonhava em nascer. Entretanto, assisti as imagens do terrível acidente de Niki Lauda inúmeras vezes desde que me tornei um aficionado pela Fórmula 1, há 26 anos. Já na primeira vez que vi tudo aquilo, pensei: esse cara é imortal.

Mais tarde, o filme Rush – No Limite da Emoção me fez conhecer alguns fatos que reforçaram minha visão sobre Lauda. Dias depois do acidente, ele chegou a receber a extrema unção no hospital. Ninguém mais acreditava que ele sobreviveria às queimaduras de terceiro grau em quase todo o corpo e às consequências de ter inalado uma quantidade absurda de fumaça tóxica. Como a mitológica fênix, o austríaco não só sobreviveu ao acidente em Nürburgring , como voltou a correr ainda naquele ano e, por muito pouco, não foi campeão daquela temporada.

Depois disso, Lauda, que já era campeão mundial, conquistou mais dois títulos da Fórmula 1. O último deles, depois de cancelar sua aposentadoria das pistas, tornando-se, até hoje, o único caso, na categoria, de piloto que se aposentou, retornou e foi campeão.

Lauda foi um grande cara. Extremamente competitivo na Fórmula 1, mas humano acima de tudo. Ao deixar as pistas, fundou a Lauda Air, uma empresa aérea que também foi marcada pela tragédia. Em 1991, um de seus aviões, um um Boeing 767, caiu na Tailândia matando todas as 223 pessoas a bordo. O ex-piloto fez questão de ir até o local do desastre para acompanhar as investigações e prestar assistência às famílias das vítimas. À época, disse que, como dono da companhia, era como se as pessoas que morreram fossem seus familiares e que a responsabilidade pelo desastre era, independente de qualquer coisa, sua também.

Em seus últimos anos de vida, Niki Lauda se tornou uma espécie de guru da equipe Mercedes, ocupando a presidência, ainda que não executiva, da escuderia alemã. Presente em todas as corridas, transmitia, sobretudo, respeito. Quando as câmeras da transmissão oficial mostravam Lauda, era como se passassem um recado de que estava ali a própria história da Fórmula 1, materializada naquele austríaco brilhante, tricampeão mundial.

Sorte de Lewis Hamilton, Nico Rosberg, Valteri Bottas e tantos outros profissionais que puderam conviver e aprender com Niki Lauda. Sempre pensei que, fosse eu no lugar deles, iria querer passar horas seguidas conversando com ele. Saber, de fato, como era pilotar um Fórmula 1 sem toda a tecnologia presente hoje. Como era contornar as perigosas curvas sem barreiras de pneus, caixas de brita e areia. Como era pilotar de verdade, com o risco de um acidente grave a cada metro de pista.

Infelizmente, em 2018, veio a notícia de que Niki Lauda estava internado em estado grave e precisaria passar por um bizarro transplante de pulmão, já que seu órgão original ainda carregava as terríveis marcas de Nürburgring ’76. Isso foi o suficiente para me deixar triste, imaginando que uma pessoa de 69 anos dificilmente sobreviveria a um procedimento médico tão invasivo. Mas me lembrei que Lauda jamais morreria e retomei as esperanças de que ele sairia dessa e voltaria, em breve, a seu lugar de prestígio nos boxes da Mercedes. Afinal, o que era essa cirurgia perto do acidente na Alemanha?

Ele sobreviveu ao transplante. As notícias mais recentes davam conta de que ele ainda estava se recuperando, mas passava bem. Imaginei que talvez não retomasse as atividades na Fórmula 1 como antes, mas que o veria de volta em uma corrida ou outra. Lauda não voltou.

Há algumas horas veio a notícia de que o grande Niki Lauda, o eterno tricampeão, o homem que renasceu das cinzas tinha partido definitivamente. Segundo um comunicado de sua família, ele estava em Viena e morreu em casa.

Lauda não era imortal, não como eu pensei, claro. Mas, quem vai esquecer do homem que sobreviveu a um carro de Fórmula 1 envolto em chamas, recebeu a extrema unção e saiu andando do hospital? Quem vai apagar os três campeonatos mundiais que ele conquistou? Quem vai deletar da história suas batalhas épicas contra James Hunt? Por esse ponto de vista, Andreas Nikolaus Lauda nunca morrerá.

“A felicidade é inimiga. Ela te enfraquece. De repente, você tem algo a perder” (Niki Lauda)

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