Eutanásia: covardia ou um ato de amor?

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O psicólogo Mauro Vilela supera a perda da cadela Bianca ao lado do vira-lata Troy e do rotweiller Bernardo. Foto: Violeta Andrada

 

“Quando temos que considerar a possibilidade de realizar a eutanásia, vivemos um grande dilema”, desabafa o veterinário Denerson Rocha, da Clínica Veterinária Vida Animal. “A primeira questão que nos ocorre é se, de fato, temos a capacidade de decidir pela interrupção de uma vida”.  Fazer parar os batimentos cardíacos, a respiração e todas as funções vitais de um organismo, culminando na morte, é uma medida polêmica, sofrida, mas, em muitos casos, necessária. “A vida merece ser cuidada e respeitada com todos os recursos disponíveis, e a eutanásia deve ser considerada apenas em casos excepcionais”, diz o médico.

Tanto o profissional quanto os familiares devem ser muito criteriosos para não tomarem uma decisão equivocada e, em algum momento, perceberem que ainda havia chance de recuperação. Afinal, os bichos sãos seres sencientes, portadores de sensações e sentimentos, protagonistas de uma história que deixará memórias e muitas saudades. Mesmo quando a cura não é vislumbrada, é possível que o pet viva em tratamento contínuo, sem comprometer a sua qualidade de vida. “Não é assim que faríamos se fosse com um humano? Em uma primeira análise, é preciso se colocar na pele do animal e excluir os fatores práticos e financeiros. Se houver dúvida, é porque a eutanásia não é a decisão mais acertada”, diz o veterinário Gilson Dias Rodrigues, da Associação Bichos Gerais.

Após a morte do gato Lord, a gerente Luiza Papini recuperou a alegria com a gatinha Nina. Foto: Violeta Andrada

A adoção de terapias alternativas e complementares como a homeopatia, acupuntura e fisioterapia, aliadas à modernos medicamentos, pode trazer sobrevida aos bichos e permite que a família possa vivenciar o processo de despedida de forma natural e com serenidade.  Mas e quando não há outra saída? Durante um ano o psicólogo Mauro Vilela acompanhou a cadela Bianca, rottweiler de 7 anos, a repetidas visitas ao veterinário para tratar um câncer no sistema linfático. Em fevereiro, quando ela já não andava nem comia mais, viu-se diante da dura decisão. “Me lembro de na hora, olhar dentro dos seus olhos e dizer: te peguei pequenininha, cuidei de você durante toda a sua vida e vou ficar do seu lado até o fim”. A certeza de que havia feito tudo o que estava ao seu alcance para salvá-la é o que lhe conforta. Hoje, a companhia de Bernardo, irmão de Bianca, e de seus outros cães diminui a sua dor. A ginecologista obstetra Samia Jabour não aceitava a ideia de ficar sem o yorkshire Brutus, 16 anos, mesmo após ele passar a usar fraldas e a se alimentar via seringa. Acostumada a trazer vidas ao mundo, não se rendia à eutanásia. “Uma noite ele começou a chorar baixinho de dor e então percebi o quanto estava sofrendo. Só então aceitei a sugestão do médico que o acompanhava”.

Para o veterinário Marcos Mourão, da clínica Cães e Amigos, a eutanásia só deve ser realizada quando o animal estiver em situação de muito sofrimento, após avaliação de profissionais responsáveis. “Infelizmente, é comum tutores nos procurarem com o intuito de ‘sacrificar’ seus animais porque estão velhos, ou porque possuem alguma doença que exija mais cuidados. É muita falta de amor”, lamenta. Ele explica que, quando realizado de forma correta e consciente, o procedimento é feito através de uma injeção de tranquilizante, seguida de altas doses de anestésicos, resultando na paralisação do funcionamento dos pulmões, cérebro e coração. “Faz-se todo o possível para que o animal não sinta dor”, diz.

Junto de seu cães Dama, Zorro e Olívia, a ginecologista Samia Jabour guarda lembranças do yorkshire Brutus. Foto: Violeta Andrada

Olhando a foto de Lord, gato sem raça definida, a gerente Luiza Papini não esconde a emoção. Há quatro anos o adotou com uma doença grave e mesmo assim conviveram por incríveis nove meses. “Foram dias de muita alegria. Agradeço por todos os momentos que vivemos juntos”. O quadro se agravou e evoluiu para insuficiência renal, chegando a um estado quase vegetativo. “Acompanhei todo o processo da eutanásia”, lembra. “Enquanto ele dormia, a veterinária orava o Pai Nosso. Foi um conforto para mim”. Meses depois adotou os gatinhos Nina e Billy, seus novos companheiros. O veterinário Denerson Rocha orienta aqueles que estão passando por esse momento tão difícil. “Esqueça um pouco as considerações técnicas e, com o coração aberto, deixe que o seu companheirinho participe da decisão. Tente entender o que ele está sentindo e a resposta virá”.

 

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