A odisseia do papagaio Loro: justiça define o destino do animal após ser apreendido pelo IBAMA

Publicado em
Enquanto a justiça define o seu destino, Loro recebe visitas dos antigos tutores duas vezes por semana no Cetas BH. Foto: arquivo pessoal

 

Primeiro o papagaio Loro  foi retirado de seu habitat natural e levado para a vida na civilização. De porte pequeno, meio franzino, talvez não tivesse muitas chances de sobreviver na vida selvagem. Afastado abruptamente dos companheiros de sua espécie, chegou já adulto às mãos daqueles que seriam seus tutores por longos 11 anos. Um conhecido havia dado o bicho de presente ao casal. Entusiasmados com a ideia de ter um papagaio em casa, que ainda por cima adorava falar, ambos não pensaram em quais seriam as consequências daquela decisão. Se apegaram tanto ao Loro que ele acabou virando um animal de estimação. Passou a gostar de ouvir música, cantar e não dispensava um carinho na cabeça. Sua diversão em casa era interagir com as pessoas. Ganhou tratamento vip, com direito a alimentação balanceada e acompanhamento veterinário.

Mesmo fazendo parte da grande estatística de animais silvestres resgatados pelos órgãos de proteção ao meio ambiente por meio de denúncias, Loro tem um diferencial. Não foi vítima do tráfico – terceira maior atividade ilegal do mundo que leva muitas espécies à extinção. Somente em Belo Horizonte, mais de 7000 animais são apreendidos por ano, a maioria deles aves, especialmente papagaios. Em novembro de 2017, mais uma vez, a vida do Loro teve uma reviravolta. Desta vez, para pior. A pedido do Instituto Estadual de Florestas (IEF), a Polícia Militar (PM) o retirou de seu pequeno pedaço do paraíso. Segundo a legislação brasileira, é proibido ter animal silvestre em casa que em algum momento tenha sido retirado da natureza. “A posse legal só é possível quando o animal nasce em criatório autorizado por órgão competente para comercializá-lo, mediante emissão de nota fiscal e implantação de anilha de identificação nas aves e microchips nos mamíferos”, declara o IBAMA.

Mas e o Loro? Que culpa tem de ter sido retirado do seu habitat e ganhado uma vida boa na cidade? Levado para o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), perdeu todo o conforto que havia se acostumado. Mais do que isso. Pode perder a vida. Sem a malícia necessária, ao ser inserido a um bando de papagaios não conseguiu se defender. “Apanhou ao ponto de perder as  penas da cauda, está quase careca de tanto levar bicadas e parte do bico quase foi arrancada”, conta a antiga tutora, a aposentada  Mônica Magalhães Drummond. Obviamente que após anos de domesticação, não possui instintos naturais de defesa e sobrevivência. Em nove meses longe de sua família humana, perdeu peso, não canta mais, não interage com as pessoas e quase não responde aos estímulos oferecidos. Em ação movida contra o IBAMA e o IEF para reaver a guarda do animal, a advogada Fernanda Bouchardet conseguiu o benefício de  visitar o papagaio duas vezes por semana. Ainda assim, Loro que não tem culpa de nada, vive triste em seu cárcere.  “Se ele estivesse bem, nós mesmos aceitaríamos que fosse reintroduzido à natureza. Mas está mais do que claro de que não tem a mínima chance de sobreviver sozinho ou em bando. Está definhando”, lamenta Fernanda.

No último dia 22, quarta-feira, nova audiência foi feita para tratar o caso. Na primeira liminar, o juiz havia determinado que o papagaio fosse devolvido à família. O IBAMA se recusou, alegando que o caso é de responsabilidade do IEF. Novo processo foi impetrado. Desta vez, a juíza do caso autorizou as visitas e determinou que Loro retornasse para o Cetas de Belo Horizonte, tendo em vista que havia sido transferido para o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres de Nova Lima (CRAS). A partir de agora as partes envolvidas têm o prazo de cinco dias para fazer as alegações finais e na sequência, a sentença será definida. “Se o resultado for desfavorável, iremos recorrer”, diz a advogada. A esperança é de que o bem-estar de Loro seja colocado em primeiro lugar e que os donos possam ser depositários fieis do animal, possibilidade  prevista em lei. Para Fernanda, a medida é necessária na maioria dos casos, considerando que o IBAMA não possui estrutura adequada para receber todos os animais que estão abrigados de forma ilegal. “Tem  que  haver  bom-senso. Os animais não podem pagar pelos erros dos donos”.

Fique por dentro

Órgãos de proteção ao meio ambiente: IBAMA, Instituto Estadual de Florestas (IEF) e Polícia do Meio Ambiente

Informações sobre animais silvestres: Linha Verde 0800-618080

Entrega voluntária – o indivíduo que entregar o animal silvestre direto ao IBAMA, não sofrerá nenhuma penalidade

Crime Ambiental –  quem tem animal silvestre em casa está sujeito a apreensão do animal e multa de R$500,00 ou R$ 5.000,00 por indivíduo (animais em extinção), e detenção de seis meses a um ano

Fonte: IBAMA

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


*